o acidental filho do trala*

6 de dezembro de 2009

Christmas carols…

christmas Natal de novo. Prendas.

Há que fazer uma lista de presentes para dar aos nossos chefes, aos nossos superiores hierárquicos, aos nossos avaliadores. Como a crise está brava e o dinheiro não serve todos os nossos propósitos, há que ser muito selectivo. Nada de dar prendas àqueles que não podem nunca fazer-nos nenhum mal…

Os amigos, os perenes amigos, os que realmente gostam de nós ficam sem prendas este Natal. Neles nada de perverso contra nós se pode engendrar. É esta a razão por que não gastaremos um cêntimo com eles desta vez…

Há, no entanto, um conjunto de pessoas de quem dependemos para continuar a respirar ou comer o nosso bacalhau com batatas na paz de Deus. Esses merecem, é claro, a nossa integral devoção.

(Se eu vou dar prendas ao meu melhor amigo? Claro que não. Desse nada de mau posso esperar… )

(Imagem daqui)

1 de setembro de 2009

Vêm aí as eleições…

eleiçoesChegaram as eleições. Que alegria!

A alegria da chegada das eleições só é comparável à da chegada das férias e das andorinhas. Adoro eleições. Na verdade, só votei uma vez, em 1975, acho eu, era então um jovem incendiado a escrever como ia ser a minha vida. E tinha sobre ela uma irresponsável e sublime expectativa.

Não me lembro que eleições foram essas, mas sei que foram as primeiras a que compareci. E também as únicas. Achei tudo muito divertido. Votei então num impensável partido de extrema-esquerda. Depois, a vida correu, correu, caiu e machucou-se. Nos joelhos e na esperança. Como qualquer criança. E todos os anos havia a chegada das andorinhas. E houve, depois, regularmente, eleições que eu seguia de longe, cada vez mais perplexo. Mas só as andorinhas melhoravam as nossas vidas…

(Ah! Sabem que mais? Nem as andorinhas…)

(Imagem daqui)

18 de agosto de 2009

Um caso quase verídico

Heaven Depois dos sessenta anos, o Sr. Ricardo Santiago, razoavelmente rico e sempiterno solteirão, começou a construir a ideia de que valeria mais investir no céu do que na terra, na alma do que no corpo. O corpo pendia-lhe para o sono e a terra estava ultimamente a presenteá-lo com mais desencantos e arrelias do que júbilos. Foi por isso que, no passado mês de Julho, resolveu deixar toda a sua fortuna a um desconhecido que lhe entrou pela casa dentro e lhe prometeu um lugar cativo no Paraíso, para toda a eternidade. Fez-se a prova do pleno uso das suas faculdades mentais e a escritura de doação, baseada no facto de não haver herdeiros directos e de que o desconhecido lhe salvara a vida. Foi esse profundo sentimento de gratidão que permitira a transferência para a conta do desconhecido de mais de duzentos e cinquenta mil euros.

Por alguma razão, porém, a Polícia veio a saber deste acto cartorial e, desconfiada, investigou e acabou por trancafiar a alma caridosa do burlão (a alma e o corpo ainda jovem) atrás das grades, devolvendo, na íntegra, a fortuna do Sr. Ricardo ao seu legítimo proprietário e aconselhando este a fazer, de preferência, uma transferência para o Estado, facto que certamente lhe daria sentido à vida e lhe devolveria a felicidade perdida, ainda cá neste mundo.

Seja porque não sabia quem era esse tal Estado, seja porque, sabendo-o, este beneficiário não lhe granjeou confiança, o Sr. Ricardo Santiago nada mais fez quanto à sua fortuna, continuando, assim, condenado à riqueza terrena e sem esperança numa cadeira ao lado de São Pedro…

(Imagem daqui)

10 de agosto de 2009

Intimista

Onde estava eu enquanto estes dois emanavam torrentes de sensibilidade, inteligência e talento? Que vida imprestável estaria eu vivendo? Quereria ficar colado a esses dois aí, feito tatuagem. Enfim, eles estão aí, vivos, e eu também. Por isso, não trocaria o meu tempo por nenhum outro…

26 de julho de 2009

Aurea mediocritas

A criançada, em número de seis exemplares (alguns deles sendo claramente seus), encharcava-se na água alambre da swimming-pool de plástico de três metros. A sogra acabava de aurea medchegar dentro daquele seu inolvidável vestido às ramagens, apregoador de tantas primaveras passadas, e trazia um bolo de noz. A mulher soprava umas brasas para assar uns nacos de carne de promoção. Ele, sentado na cadeira de plástico branco, folheava a Dica da Semana e sorria sereno de alguma novidade política, inconfidência de estrela pop ou baixa de preços, sentindo no ar o cheiro certificado da família e das febras. Uma única preocupação enrugava, de quando em vez, as testas do casal: que algum dos respectivos amantes telefonasse agora, a estragar as alegrias da consoladora e reconfortante tarte de noz familiar…

(Imagem daqui)

25 de julho de 2009

Minudências minhas

poder O poder

Nunca o tive em minhas mãos, nem mesmo para saber de que cor ele é. Mas ouço falar dele desde, pelo menos, 1974. E, aparentemente, raras vezes estacionou ele nas mãos certas, ou, pelo menos, nas mãos menos erradas. O poder deve ser como o dinheiro (que também nunca tive): quem o tem quase nunca o merece, quem nunca o teve nem sequer sabe se é mau viver sem ele, nem se é bom viver com ele…

Nem pensem em um dia me dar poder, ainda que seja um poderzinho limitado, assim do tipo mandar numa ilhota como a do Alberto João. Pensam que eu me ficava por umas alarvidades contra a república, o estado, o governo, o ministério? Nada disso. Eu afundava mesmo. Destituía dos seus lugares todos os políticos, administradores, chefes, directores, capatazes, para colocar lá os meus amigos e as suas esposas (pelo menos as menos feias e as que cozinham bem e que alguma vez me tivessem convidado para almoçar, jantar ou outra).

Isso não seria um governo decente? Claro que não seria, seria apenas mais um governo para cumprir a tradição.

(Isto é mesmo a silly season)

(Imagem daqui)