o acidental filho do trala*

13 de janeiro de 2010

Haiti

haiti Não sei se a Terra sabe que há gente passeando sobre ela, gente encafuada em construções matreiras, antros de fragas, babelianas torres, cumprindo o seu tempo de serviço, satisfazendo imperiosos mas obscuros desígnios, gente contando dias como dúvidas, estremecida ao ritmo dos seus cataclismos. Assassina Terra, filiofágica, crua.

(Imagem daqui)

10 de janeiro de 2010

“Les hommes, l’amour, la fidelité”

maryse Ora aí está. Afinal de contas as facadas no matrimónio que tanto homem perpetra diariamente (noitariamente, de preferência) têm uma compulsiva razão biológica. O homem, coitado, não faz mais que sucumbir à sua inelutável condição de macho. Maryse Vaillant vai ainda um pouco mais longe: “Todo o homem fiel evidencia, necessariamente, um desajuste de carácter”. Pois claro, do tipo atraso moral, depravação ou mesmo psicopatia congénita. Como devem estar felizes (finalmente) quase todos os homens do meu sexo!…

(E eu que pensava que a senhora era só a dona de uma fábrica de esquentadores…)

(Imagem daqui)

8 de janeiro de 2010

obsessões do meu ipod

ray charles

“Nasci pobre e fiquei cego. Mas não me queixo. Pior que tudo seria se tivesse nascido preto…”  (a autobiografia minimal de Ray Charles)

Talento, voz, sensibilidade, humor fino e cáustico. Um pessimista bem resolvido, um optimista no seio do infortúnio. Vá lá, desliguem de novo o radio do blog. Cliquem no play para ouvir Somewhere over the rainbow.

(Imagem daqui)

… nesta hora difícil…

paneleiros Antes de mais, cumpre-me deixar aqui uma palavra de conforto e solidariedade, nesta hora negra, a todos os homens do outro sexo. Eu sei o que é ficar indefeso contra a instituição do matrimónio. Até agora, o estado velava pela vossa integridade física e mental, afastando liminarmente de vós qualquer hipótese de contrair matrimónio. Era, digamos assim, uma vacina eficaz contra a aquisição do estado civil de casado. A partir de hoje, todavia, vocês estão tão desamparados como qualquer um de nós. Eu sou heterossexual, extremamente vulnerável (fui infectado duas vezes pela moléstia do casamento), e sei bem os reveses que isso me tem causado na vida. Querem um conselho? Agora que já podem casar, esqueçam. Permaneçam solteiros.

(Imagem daqui)

2 de janeiro de 2010

puto chatinho, meu…

pai natal Nunca me tinha apercebido de como é difícil conversar com uma criança sobre os delírios natalícios.

O pai natal é que traz as prendas, sim, mas de onde, com que dinheiro, em que shopping as compra? E se é tão rico como dizem, por que não tem dinheiro para uma simples gillette? E por que desce pela chaminé? Será burro, labrego, maníaco-depressivo? Afinal o pai natal é um hacker ou um infoexcluído? E viaja de rena ou de vespa? Rena come o quê? E quem é que come as renas? Onde diabo se vendem asas de rena? E o menino Jesus não cresce nunca? Com aquela idade, e aquele tamanhinho de que lhe adianta estar nu? E a Nossa Senhora é minha e de quem mais? E por que resulta mais pedir em voz alta do que rezar em voz baixa? Ora, também não sabes nada, já vi tudo…

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31 de dezembro de 2009

Em tempo de crise é que engordam os porcos

porco O ano que passou (enfim, toda a década que passou) foi mau para a democracia e para a saúde. Os moralistas apregoam que não podia (não deveria) ter sido assim, que, em tempo de crise, não se pode roubar o pobre, não se deve olhar os umbigos, não se pode amarrar o burro na seara alheia, não se deve usar de intrujice, de sacanice, de sandice, de patifaria, de canalhice, de infâmia, de pulhice, enfim, da mais hedionda falta de vergonha do acto político de que os mais fantasistas poderiam alguma vez ter suspeitado. Tudo isso se passou em Portugal, na década de zero e, sobretudo, na sua segunda metade.

Mas os moralistas estão enganados. É em épocas de crise que mais se acicata a ignomínia, que mais prolifera a vileza, que mais se ceva a baixeza dos homens…

(Pronto, já fui moralista quanto baste. Agora vou ver se sobrou alguma coisa do jantar dos ricos…)

(Imagem daqui)