o acidental filho do trala*

13 de junho de 2010

Sem vuvuzela não dá, pá

vuvuzelas E foi então que o génio humano, num rasgo de… génio, é claro, inventou a vuvuzela. E eu que pensava que a humanidade já tinha descido tudo o que havia para descer. Enganei-me. A princípio julguei que a invenção fosse portuguesa. Não era. Mas podia muito bem ser. O português, quando fica apertado com qualquer coisa (uma crise, um azar, uma figadeira, um negócio falido, um jantar com a sogra, uma ida à escola para falar do puto, uma derrota no estádio), é capaz dos mais inusitados desarrincanços. A vuvuzela, tal como o Zé Cabra e tantos outros eficientes barulhogeradores da área do roque, parecia ser mais um sucesso estrondosamente imediato. E foi. O suficiente para se venderem alguns milhares que tiraram do aperto financeiro aquela família de esmerado bom gosto que resolveu comercializá-la entre nós.

Agora o outro lado, o lado dos jogadores e organizadores do evento desportivo mundial. Vejam lá, eles não gostaram da vuvuzela. Um bando de incultos, surdos que nem uma porta, sem um cêntimo de ouvido musical. Querem proibi-la. Dizem que impede a comunicação entre os jogadores no campo. Imaginem, um som tão mavioso…

E o golo? Que será do golo sem a vuvuzela? É como um filme sem banda sonora, que diacho… Como vou acordar quando a equipa das quinas marcar um golo? Não me importo de perder o desafio por causa do sono. Mas o golo (se algum houver) não queria perder. Isso não.

(Imagem daqui)

8 de maio de 2010

O sr deputado tomou posse…

gravador Quando aquele deputado do PS roubou os dois gravadores ao jornalista, alguém se referiu ao acto como uma tomada de posse: “ele tomou posse de dois gravadores”. A curiosa expressão estava, no meu inconsciente, ligada a uma cerimónia mais ou menos protocolar e honorífica em que governantes ou presidentes se apresentam ao país, assumindo que o vão governar a partir desse (por vezes hilariante) momento. Está tudo explicado. É bem possível, pois, que, a partir desse momento, também os governantes metam as mãos nos nossos bolsos… para nos roubar os gravadores, é claro…

Eles tomam posse, está visto…

(Imagem daqui)

11 de abril de 2010

vencer a crise

carteira Há 15 anos que não sou promovido. Primeiro, achei que tinha sido objecto de esquecimento. Depois, e de acordo com o Princípio de Peter, verifiquei que, de facto, tinha atingido o meu nível de incompetência.

Há, no entanto, outros como eu. E, curiosamente, considero esses bastante competentes no seu trabalho. Deve, no entanto, haver algum quid pro quo que lhes impede a progressão, como um cadáver no armário ou um escândalo sexual na adolescência, sei lá… A perplexidade do comparativo do eu com os outros é mais perplexa do que eu, quando me perplexizo. Na verdade, nunca soubemos por que razão os outros são piores ou melhores do que nós. Agora não sabemos também por que razões alguns são iguais a nós…

Já que a receita se manterá inalterável sine die, a solução da minha crise vai ter que se fazer do lado da despesa. Assim, já cortei quase tudo, excepto a água, o gás, a electricidade e a net. Mas também está por dias. Para começar, deixei de pagar o telefone. Toca todos os dias. Uma voz simpática de mulher aconselha-me a pagar a factura atrasada. Desligo. Não tenho grande respeito por vozes de máquinas.

Um dia desses vou ter que perguntar aos meus amigos perenemente despromovidos como fazem eles para chegar airosamente ao fim do mês.

(É que, comigo, chegar airosamente ao fim do mês é uma interrupção meteórica na minha ordinária pelintrice que não augura nada de bom…)

(Imagem daqui)

19 de fevereiro de 2010

Minudências minhas

euros O dinheiro

Eu e o dinheiro temos uma relação platónica: amo-o muito mas nunca lhe toquei. Somos, apesar de tudo, fiéis um ao outro, tanto quanto o permite esse ascetismo que nos envolve: ele anda por outras mãos, pensando em mim, no que eu lhe faria se um dia o tivesse… Por meu lado, nunca lhe imaginei um substituto mais vantajoso.

Como acontece com todos os amores platónicos que um dia deixam de o ser, acredito que, uma vez tendo-o, perderia por ele o apetite. Os que o têm todos os dias vejo-os eu inconformados e ansiosos, insatisfeitos de corpo e alma, tentando sempre conquistar outro e outro e outro. Tarefa inglória, repetitiva, monocórdica, anorgástica…

Mas eu não. Eu divinizo-o, como divinizo o tempo, as hóstias e as próprias deidades. Sublimo-o. Adoro-lhe de longe as transcendentes moradas (CGD, BPN, BES, e outras catedrais) e mordo o lencinho de donzela recatada…

Tem vezes que babo…

(Imagem daqui)

17 de fevereiro de 2010

sobre esta nossa coisa íntima…

… de querermos sempre manipular a opinião dos outros

barbatana A tentativa recorrente de tentarmos virar a opinião pública a nosso favor é mais velha que o mundo. Mesmo nós, que do poder só temos a barbatana, gostamos quando alguém diz bem do que fizemos ou enaltece as nossas posições e argumentos. Amigo meu chama-me inteligente e talentoso e di-lo aos outros completamente à borla. Essa história de que os amigos são quem nos fala a verdade é pura léria. Para que quero um verdadeiro amigo que olha de lado para o que faço, que está sempre pronto a aporrinhar-me com moralismos, que só sabe é chamar-me a atenção para as minhas burrices e infracções? Quero é amigos que me lisonjeiem, que acenem cordatos e respeitosos quando falo, que riam alvares das minhas piadas tontas. Quero lá saber do que eles pensam lá por dentro! O que me interessa realmente é que todos acreditem que eles são sinceros, ainda que nunca o tenham sido, nem façam planos para o ser.

E só tento agarrar-me à barbatana do poder… a caudal…

(Imagem daqui)

6 de fevereiro de 2010

obsessões do meu ipod (5)

chico_buarque

O samba em Chico Buarque – “Ela faz cinema”.

(Desligue o rádio do blogue à direita e ouça, clicando no play acima.)

Quando ela chora
Não sei se é dos olhos para fora
Não sei do que ri
Eu não sei se ela agora
Está fora de si
Ou se é o estilo de uma grande dama
Quando me encara e desata os cabelos
Não sei se ela está mesmo aqui
Quando se joga na minha cama
Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é a tal
Sei que ela pode ser mil
Mas não existe outra igual
Quando ela mente
Não sei se ela deveras sente
O que mente para mim
Serei eu meramente
Mais um personagem efêmero
Da sua trama
Quando vestida de preto
Dá-me um beijo seco
Prevejo meu fim

E a cada vez que o perdão
Me clama

Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é demais
Talvez nem me queira bem
Porém faz um bem que ninguém
Me faz
Eu não sei
Se ela sabe o que fez
Quando fez o meu peito
Cantar outra vez
Quando ela jura
Não sei por que Deus ela jura
Que tem coração
e quando o meu coração
Se inflama
Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é assim
Nunca será de ninguém
Porém eu não sei viver sem
E fim.

(Imagem daqui)

Nota: Nesta rubrica. tenho vindo a publicar alguns ficheiros de audio. Assumo como legal esta actividade, mais por razões de natureza consuetudinária do que por verdadeiro conhecimento da lei de autores. Qualquer entidade que vislumbre um quadro de ilegalidade neste acto deverá fazer-me saber e a rubrica será de imediato cancelada.