o acidental filho do trala*

9 de julho de 2010

obsessões do meu ipod (16)

1969. Chico estava quase no início da sua carreira. Criou Essa Moça Tá Diferente três anos depois d’A Banda que o catapultou definitivamente para o reconhecimento mundial. Estava então com 25 anos, prestes a exilar-se em Itália, por não simpatizar com a ditadura militar. Essa Moça Tá Diferente é uma das primeiras canções do Chico em que se mistura já a intensa crítica social com a mais conseguida  componente lírica, tudo servido por uma estrutura linguística, poética e rítmica, de inegável riqueza.

(Desligue o rádio do blogue e veja e ouça com atenção.)

Essa moça tá diferente
Já não me conhece mais
Está pra lá de pra frente
Está me passando pra trás
Essa moça tá decidida
A se supermodernizar
Ela só samba escondida
Que é pra ninguém reparar
Eu cultivo rosas e rimas
Achando que é muito bom
Ela me olha de cima
E vai desinventar o som
Faço-lhe um concerto de flauta
E não lhe desperto emoção
Ela quer ver o astronauta
Descer na televisão
Mas o tempo vai

Mas o tempo vem
Ela me desfaz
Mas o que é que tem
Que ela só me guarda despeito
Que ela só me guarda desdém
Mas o tempo vai
Mas o tempo vem
Ela me desfaz
Mas o que é que tem
Se do lado esquerdo do peito
No fundo, ela ainda me quer bem

Essa moça é a tal da janela
Que eu me cansei de cantar
E agora está só na dela
Botando só pra quebrar

8 de julho de 2010

rufen Sie uns an

Mozart, Victorino de Almeida, Otelo, Herman e Maria de Medeiros, talentos que chamam Toy (António Manuel neves Ferrão) para a sua (deles) companhia. Desconhecia em Toy este talento. E vocês?

Curso de iniciação ao Latim

latim Gaudete in Domino  -  O Gaudêncio está no dominó.

Te deum laudamus  -  Te dei uma lambada

Gaudium et Spes  -  O Gaudêncio no Spa

Pules ad Margaritam  -  Salta para cima da Margarida

Fedro -  O Frederico

Esopo -  O ensopado

La Fontaine -  A Maria da Fonte

Agnus dei qui tollis peccata mundi -  Eu dei-te um anho porque és o tolo mais pacato do mundo.

Miserere nobis -  A Novis está uma miséria.

Habemus papam -  Chegou o padeiro

(Imagem daqui)

7 de julho de 2010

combater a crise…

700-377968 Estão-me a dizer que não vislumbram outra solução. Vamos todos, definitivamente, ter que cortar a televisão, o telefone, a Internet (juntamente com o facebook e o farmville e as correntes de solidariedade e aquelas incontornavelmente ubíquas apresentações de powerpoint cheias de decrépitas fábulas moralizantes). Vamos ter que viver sem o 3D (e o 4D e o 5D, que já devem estar na forja). Vamos vender os telemóveis e os ipads e os pdas e pdes e pdis e restante fauna cibernética. Vamos afastar-nos decididamente do automóvel que nunca mais conseguimos pagar e dentro do qual teimamos permanecer. Vamos pregar o calote nas companhias de gás, água e electricidade, dizer adeus ao duche diário e aos motores que regam o nosso jardim, dispensar a cozinha e passar a comer figos e erva crua. Vamos fechar as nossas depauperadas mas persistentes contas bancárias e despedir por justa causa os nossos imprestáveis e obsoletos gestores de conta. Vamos recuperar os nossos sapatos do casamento, os fatinhos da comunhão e as gravatas dos nossos divórcios. Vamos vestir de novo a velha roupa que tínhamos empilhado para seguir para Angola. Vamos ficar surdos à importação, cegos às novidades e mudos à situação politico-económica. Vamos fechar a porta a todos os cobradores e abrir a janela ao ar puro, produto raro mas insuspeitamente grátis.

(Combater a crise! Que delícia! Que libertação! Que felicidade!)

(Imagem daqui)

29 de junho de 2010

Não resolvo crises, nem sequer as entendo…

crise Uma das poucas certezas que irremediavelmente possuo sobre a actual crise capitalista é a de que houve e há uma intenção em tudo isto. Ninguém conseguiria fazer tanto mal em um sistema, se isso se devesse apenas a circunstâncias de sorte ou azar. Terá, pois, certamente, havido um dedo (ou vários dedos) discando o número exacto que faria desmoronar as relações capital/trabalho de um jeito tão determinado e tão inconveniente para este último.

Se foi o capital que engendrou esta crise (condição de que parece não haver dúvidas), ele não a teria engendrado se ela lhe fosse manifestamente desfavorável, a menos que o capital seja de uma incompetência aflitiva, opção que também já há muito descartei.

Certamente me direis que tal crise também tem os seus side-effects desagradáveis para o capital. Admito isso perfeitamente. Por vezes é preciso provocar um vómito para que nos sintamos melhor depois.

E é assim que o capital vai passar a sentir-se em pouco tempo. Querem apostar?

Entretanto, já terão subjugado o trabalhador até à condição de quase escravatura.

(Imagem daqui)

13 de junho de 2010

Sem vuvuzela não dá, pá

vuvuzelas E foi então que o génio humano, num rasgo de… génio, é claro, inventou a vuvuzela. E eu que pensava que a humanidade já tinha descido tudo o que havia para descer. Enganei-me. A princípio julguei que a invenção fosse portuguesa. Não era. Mas podia muito bem ser. O português, quando fica apertado com qualquer coisa (uma crise, um azar, uma figadeira, um negócio falido, um jantar com a sogra, uma ida à escola para falar do puto, uma derrota no estádio), é capaz dos mais inusitados desarrincanços. A vuvuzela, tal como o Zé Cabra e tantos outros eficientes barulhogeradores da área do roque, parecia ser mais um sucesso estrondosamente imediato. E foi. O suficiente para se venderem alguns milhares que tiraram do aperto financeiro aquela família de esmerado bom gosto que resolveu comercializá-la entre nós.

Agora o outro lado, o lado dos jogadores e organizadores do evento desportivo mundial. Vejam lá, eles não gostaram da vuvuzela. Um bando de incultos, surdos que nem uma porta, sem um cêntimo de ouvido musical. Querem proibi-la. Dizem que impede a comunicação entre os jogadores no campo. Imaginem, um som tão mavioso…

E o golo? Que será do golo sem a vuvuzela? É como um filme sem banda sonora, que diacho… Como vou acordar quando a equipa das quinas marcar um golo? Não me importo de perder o desafio por causa do sono. Mas o golo (se algum houver) não queria perder. Isso não.

(Imagem daqui)