Gosto irremediavelmente dos amigos, mas não acredito que eles sejam a coisa melhor do mundo. Na verdade, a coisa melhor do mundo são as amigas. Mas gosto. Cumprimento-os, saúdo-os, escuto-lhes as manias, adiciono-os. Reconheço que é bom fazer amigos novos e dificílimo preservar os velhos. Nunca acreditei, no entanto, que os amigos servissem para alguma coisa. A maior parte não tem serventia. Muitos estão sistematicamente ocupados quando precisamos deles, mais ocupados que casa de banho de cervejaria, em dia de arraial. Outros, imaginem, não bebem. Para que serve um amigo que não pode beber vinho tinto? Para nos criar problemas de consciência quando se senta à nossa frente munido de uma água de luso, para acompanhar bacalhau à lagareiro? A vida enche-nos a mesa e o balcão de amigos improváveis. Um amigo assim tem que ter alguma virtude extraordinária para que possa valer a pena tê-lo. E o problema é que, geralmente, não tem. Está certo, ele tem um hálito de zéfiro e um fígado exemplar. E daí? Para que serve um amigo que chega a muito velho, se nós não chegamos? Um amigo tem que ser mais solidário, que diabo! Na alegria e na víscera… (Imagem daqui)
6 de fevereiro de 2011
Amigo meu é defeituoso…
28 de novembro de 2010
coisas giras por email
“Camões, grande Camões, quão semelhante…” (Bocage e eu)
As sarnas de barões todos inchados
Eleitos pela plebe lusitana
Que agora se encontram instalados
Fazendo aquilo que lhes dá na gana
Nos seus poleiros bem engalanados,
Mais do que permite a decência humana,
Olvidam-se de quanto proclamaram
Em campanhas com que nos enganaram!
E também as jogadas habilidosas
Daqueles tais que foram dilatando
Contas bancárias ignominiosas,
Do Minho ao Algarve tudo devastando,
Guardam para si as coisas valiosas…
Desprezam quem de fome vai chorando!
Gritando levarei, se tiver arte,
Esta falta de vergonha a toda a parte!
Falem da crise grega todo o ano!
E das aflições que à Europa deram;
Calem-se aqueles que por engano…
Votaram no refugo que elegeram!
Que a mim mete-me nojo o peito ufano
De crápulas que só enriqueceram
Com a prática de trafulhice tanta
Que andarem à solta só me espanta.
E vós, ninfas do Coura onde eu nado
Por quem sempre senti carinho ardente
Não me deixeis agora abandonado
E concedei engenho à minha mente,
De modo a que possa, convosco ao lado,
Desmascarar de forma eloquente
Aqueles que já têm no seu gene
A besta horrível do poder perene!
Enviado por Rogério Cunha
Autor não identificado
(Imagem daqui)
20 de novembro de 2010
Embarco ou não?
Estou farto de ouvir dizer que Portugal devia ter um rumo. Ora, eu acho que o melhor para Portugal não é ter um rumo, mas vários, para o caso de alguns falharem. Cavaco Silva (o que quer menos palavras) tem um rumo; Manuel Alegre (o que até preposições sabe usar, imaginem) diz ter um rumo. O outro candidato, de cujo nome não me lembro (mas isso não admira nada, porque na verdade ninguém se lembra), também propõe um rumo, apesar de ter a palavra fanhosa e usar óculos. Há ainda um outro candidato que nunca vi mas desconfio que existe e que também tem um rumo para Portugal.
Ora, partindo do são princípio de que cada um deles terá o seu rumo próprio e que não se enfiam todos no mesmo, temos quatro rumos, quatro palavrosos/lacónicos rumos para Portugal.
Proponho que sejam eleitos os quatro candidatos e que governem o país ao mesmo tempo, munidos de rumos naturalmente divergentes. Assim, os portugueses poderiam, depois de espreitar os quatro destinos, tentar perceber qual deles é o de férias. E embarcar nesse.
(Imagem daqui)
29 de outubro de 2010
23 de outubro de 2010
mais gramática
| -“Eu fui um dos que me ri mais!” José Pedro Gomes, hoje no “Hotel Babilónia” Oh Zé, isso nem parece teu, miúdo. Tu és certamente o melhor actor da cena portuguesa. “Eu fui um dos que se riram mais”. Assim é que é, Zé. (Desculpa, mas o Ligeiríssimo é um serviço público e ainda não desistiu da questão das concordâncias.) (Imagem daqui) |
22 de outubro de 2010
homem feio e pobre pode ter razão?
- Um tipo feio e pobre pode ter razão no que diz?
- Se tudo estiver no seu lugar, se tudo for normal e consuetudinário, se as idiossincrasias estiverem todas pacificadas e não houver revoluções, nem motins, nem cataclismos, nem escuridões imprevistas, nem inopinados gelos tropicais, nem reviravoltas repentinas, não.
E não adianta esconder-se, falar só na rádio ou escrever nos jornais por detrás de uma foto falsamente sedutora.
A consideração que se possa ter por alguém vem infalivelmente acompanhada da beleza física, seja lá o que ela possa ser e por que campos ela se espraie. Um tipo feio e pobre não tem direito à opinião, a uma hipótese de liderança ou a qualquer fatia de sucesso na sua malbaratada vida. As crianças fogem dele, as mulheres evitam-no discretamente e os homens usam-no como moço de recados, escravo contemporâneo ou bala de canhão. Ser feio e pobre em simultâneo é a treva!
(imagem daqui)