“Eu sei que são duas, ora!”
(Imagem daqui)
Os muito pobres que me desculpem, mas riqueza é fundamental.
Um grande poeta brasileiro começou assim um dos seus mais saborosos poemas. Todos sabemos que os muito ricos ficaram assim por uma das três razões seguintes: 1 herdaram; 2 roubaram; 3 tiveram sorte. Em alguns casos juntaram-se as três, numa conjura afortunada e deixaram a vítima em estado lastimável, sem possibilidade de se poderem livrar da riqueza. O doente contrai então uma espécie de riqueza crónica, incurável, persistente. Nem todos os ladrões do mundo, nem todas as amantes do seu bairro, nem todos os estados gananciosos, nem mesmo a GNR com as suas providenciais multas conseguem tirar-lha.
Ficam assim, inabalavelmente ricos, frustradamente ricos, embora a maioria não apresente sintomas muito desconfortáveis. A riqueza deste tipo produz apenas um pouco de sonolência e, por vezes, alguma burrice, também ela crónica. Os alardeados sintomas de tristeza suicidária ou frustração maníaco-depressiva, febre dos fenos e frieiras interdigitais de que se diz sofrerem os ricos não passam de mito ou superstição. É certo que são ocos e presunçosos e possuem um mau gosto de pasmar, mas isso não faz deles criaturas merecedoras da nossa compaixão…
Um acrescento: a doença parece não ser contagiosa. (Infelizmente).
(Imagem daqui)
Abraços e embaraços
Há um sem-número de incidentes mais ou menos embaraçosos que podem ocorrer durante o acto sexual. Na verdade, tudo o que não seja o natural e expectável desenvolvimento do processo é embaraçoso. Trata-se de um trabalho meticuloso, exigentíssimo em termos de concentração, que não admite falhas, interrupções ou adiamentos. Ninguém pode, a meio do processo, dizer algo como isto: bom, acho que vou fazer um intervalo para apanhar um bocado de sol.
Todos os órgãos têm que estar meticulosamente afinados, mesmo os que não tenham intervenção directa no acto, como são os casos do baço, do pâncreas ou da bexiga. Estes órgãos, apesar de nunca serem convidados para o sexo, apesar mesmo de o sexo se tornar improvável se um dos parceiros os mencionar ainda que de passagem, têm que estar de boa feição para permitir, em silêncio, que tudo se passe conforme a natureza ditou. E olhem que não é tarefa fácil estar ali a assistir a tudo, sem poder tomar parte… Por uma questão de justiça, devemos agradecer a esses órgãos a sua complacente paciência e solidariedade, sempre que o acto seja coroado de êxito. (Há homens que só agradecem a Deus e se esquecem sistematicamente deles.)
Porém, o maior inimigo de um bom desempenho é a breca. A historiografia sexual está cheia de desastres provocados pela breca. Nenhuma mulher entende isso e, no entanto, a breca é muito mais frequente do que se imagina. Tu levantas-te de repente com uma perna no ar, ganindo de dor, não tens posição conciliatória, nem te ocorre sequer alinhavar uma justificação. Ficas ali apavorado e já nem te preocupas com a tua imagem arruinada. E a tua parceira a achar que não passas de um palhaço e que teria feito melhor se aceitasse o convite do marido para ir visitar a tia Leopoldina. Um nome a riscar do seu cardápio é o que para ela passarás a ser em definitivo. A breca destruiu-te a noite e a auto-estima. Encolheu-te, num só dia, uns bons dois ou três centímetros.
A breca provoca a auto comiseração e o arrependimento. É o primeiro passo para a salvação da alma. Por isso, Paulo, nas tuas próximas conquistas, não peças a deus a presença majestosa da erecção. Pede-lhe antes a ausência da breca…
(Imagem daqui)