o acidental filho do trala*

8 de maio de 2009

CDL e CII

cdl Os contratos de trabalho dos banqueiros e gestores bancários (enfim, de todos os que têm acesso fácil e privilegiado à massa com que se compram os melões) deveriam contemplar uma cláusula que justificasse a falta ao emprego quando aqueles profissionais acordassem de manhã com uma indomável vontade de fazer uma falcatrua financeira ou um desvio de capitais para as suas contitas pessoais. Chamar-se-ia Cláusula da Desonestidade Latente (CDL) e, no limite, evitaria a bancarrota do sistema capitalista. Não é que eu esteja particularmente empenhado em que o sistema capitalista não caia do cavalo ou não rebente pelas costuras. Por mim, pode até explodir, implodir, derreter, escoar-se, petrificar-se, que eu não estou nem aí. Mas custa-me por demais ser mais um dos pacóvios que andaram para aqui a ver navios, trabalhando decentemente, cheios de pruridos e de contenções éticas, enquanto uma falange de mafiosos se governou com o meu trabalho de asno e a minha inépcia financeira.

cii Cláusula semelhante deveria ser introduzida no ECD, permitindo aos professores ficarem em casa nos dias em que acordassem invulgarmente estúpidos. Neste caso a cláusula seria chamada CII (Cláusula da Idiotia Imprevisível). É que cachorrice e imbecilidade não são doenças genéticas. São adquiridas socialmente e mais contagiosas que sarna multissintomática.

Por que falo destes dois casos? Bem, do primeiro quem fala é a minha lamurienta e desprestigiada carteira. Quanto ao segundo, caí, desamparado e zonzo, numa reunião de professores contra encarregados de educação e vi quão benéfica teria sido uma quarentena. Chiça!

(Imagens daqui e daqui)

4 de maio de 2009

quarentena

mascara Tenho estado fechado. Por causa da gripe porcina ou mexicana ou lá como se chama essa nova coqueluche. (Ultimamente temos andado a sofrer de pandemonias várias: freeportite A, vitalmoreirite B, crisite C, desempreguite D, campanheleitoralite E, etc. Por isso estive fechado esse tempo todo. Mas agora vou regressar, visto que afinal só houve um caso em Portugal e ainda nem sequer foi caso que se visse. Portugal continua a ser um paraíso onde os vírus não se dão bem. (Nem os corruptos, que também são uma espécie de vírus mas maiores e com barba na cara, embora sem vergonha). Por isso vou regressar. De máscara clínica. Mas vou.

(Fica a ameaça.)

(Imagem daqui)

24 de abril de 2009

Não existe literatura do encómio, meu caro…

literatura1 Sempre que alguém escreveu panegíricos, arrependeu-se um dia. Músicos endereçaram odes triunfais a ditadores de esquerda e de direita e rasgaram as partituras. Grandes Poetas debitaram loas aos seus heróis e descreram de tudo na última página. Dramaturgos sublimes elevaram aos píncaros os seus heróis colectivos e nunca mais foram lidos.

A única literatura que perdura é a da mordacidade. O único texto decoroso e honesto corre contra a corrente. O único poema que nos arrebata é o do ressentimento cristalizado.

Tudo o mais fica aí a perpetuar a mediocridade de quem o fez, a limitação triste da triste humanidade…

(Imagem daqui)

Radio Days

radio antigo Lembraste-te, pois foi… Eu sei que ficaste apaixonado pelo Radio Days. A propósito dos Mass Media que leccionas em Inglês e, mais especificamente, a propósito da importância da rádio nas anos 40, ousaste levar o filme para a aula. Enquanto te deleitavas com tudo o que Allen te propunha, desde a música até os inteligentes diálogos de cena, passando pelos escultóricos receptores de madeira e a guerra dos mundos de Welles, os teus alunos adormeciam lenta e despudoradamente na semi-obscuridade da sala. E tu não entendeste que porra falhou ali.

Ou já previas tudo isso, mas ainda assim apostaste. E perdeste, já se vê.

(Imagem daqui)

3 de abril de 2009

Vou ser famoso, prontos!

fame Já decidi: quero ser famoso. Tenho praticamente todos os requisitos: sou estúpido, feio, pobre e não sei fazer praticamente nada. Nunca serei rico, nem belo, nem inteligente. Resta-me, portanto, ser famoso.

O meu problema com relação aos requisitos é que lhes falta um pouco de radicalidade. Sou estúpido, mas não sou o mais estúpido de todos. Sou feio, mas conheço pelo menos um tipo mais feio do que eu. Já é famoso, é claro. Sou pobre, mas tenho um modesto e virtuoso emprego que me dá o sustento dia após dia. Não sei fazer nada, mas os famosos sabem fazer isso bem melhor do que eu.

Enfim, não conheço maior impedimento à fama que ser quase normal. Preciso urgentemente de me anormalizar um pouco.

Mas não vou desistir. Com o que me sobrou do salário deste mês, comprei uns óculos escuros. É o primeiro passo, vocês não acham? Não será muito, mas um primo afastado meu é Presidente da Junta e...

(Imagem daqui)

28 de março de 2009

Minudências minhas

monotonia A monotonia

Sou um chato. Monótono e monocórdico, raramente resvalo. Passo dias observando os mesmos objectos, repetida e insipidamente pasmado. Mudo de olhos, sim, mas não mudo de motivo. A monotonia agrada-me. O meu samba é de uma nota só e é divino. Outras notas podem entrar, mas a base é uma só… etc.

Quando me sento ao piano, toco com o indicador direito. Sai uma coisa qualquer, provavelmente inesperada (um analfabeto musical nunca sabe que som vai sair de uma tecla), mas sempre sublime. E o que procuro a seguir? Outra nota? Não! Procuro a mesma, tocada em outra tecla, com outro dedo. Mas a mesma. Passei a minha vida à procura de uma mulher que conheci aos 15 anos. Quando achava que a tinha encontrado, casava-me. Afinal não era ela. Divórcio, que é a mesma coisa que a procura monocordicamente incessante, mas tocada por outro dedo, vista por outros olhos, abordada pelo outro lado da paixão.

(Decididamente amo obsessivamente a monotonia, pelo bem que traz ao mundo. Não é ela que previne a SIDA?...)

(Imagem daqui)